003 | Vandalismo sobre a estátua de Ariano Suassuna - intenção ou ignorância?


Foi noticiado na grande imprensa que a estátua do escritor Ariano Suassuna, instalada na Rua da Aurora no Recife, foi alvo de vandalismo.


Não há de se saber se o objetivo dos criminosos foi atacar e tentar apagar mais um dos nossos pensadores e escritores brasileiros, em uma nítida onda de neoconservadorismo e ignorância voluntária patrocinada pela dialética erística, ou pelo próprio desprezo mesmo do patrimônio cultural por não se saber sequer quem foi Ariano Suassuna.


Pois bem... vamos apresentá-lo!


Ariano Suassuna foi nascido no ano de 1927, na cidade de Taperoá, no interior da Paraíba. Ainda jovem, radicou-se em Pernambuco, definindo-se como o "paraibano mais pernambucano que existe. Era torcedor ferrenho do Sport - daí porque o uso de sua vestimenta em vermelho e preto, sempre e foi autor de importantíssimas obras de nossa literatura, como o Auto da Compadecida (1957) e a Pedra do Reino (1971), ambos, inclusive, transformados em obras televisivas pela Rede Globo.


Uma das maiores pesquisadoras sobre a obra de Ariano Suassuna - assim como o sertão e sobre o recorte entre feminismo e mulheres sertanejas - a professora, advogada, historiadora e mestre em Direito pela UFBA, Ezilda Melo, em sua dissertação, destacou a importância de sua obra (link abaixo). Assim, afirmou:


Ariano Suassuna com sua imensa capacidade literária enriqueceu a literatura e o Teatro Brasileiro ao apresentar para a comunidade obras como A Pena e a Lei e Auto da Compadecida. Tem mais de jurídico nas obras de Ariano Suassuna do que em muitas obras que o tratam hipoteticamente, na linha kantiana, fechada e hermética, do sistema jurídico (...) Suassuna teve influência também de Plauto, Brueghel, Molière, Bosch, Shakespeare, Goya, Cervantes, como também de Calderon de La Barca, dos artistas coloniais, dos cordelistas a exemplo de Leandro Gomes de Barros. Recebeu muita influência ainda do romanceiro nordestino, por exemplo ,O Castigo da Soberba, O Enterro do Cachorro e A História do Cavalo que Defecava Dinheiro, são romances populares anônimos que serviram de inspiração em cenas importantes de Auto da Compadecida.




Abaixo um breve texto de Ezilda sobre Ariano Suassuna:




Tomei a liberdade de colocar também abaixo o link da entrevista pessoal que fiz com Ezilda, em sua passagem em Salvador (disponível no YouTube) e também de um episódio do podcast "A Biblioteca de Kirchmann" que tive a honra de participar com ela. Vale a pena dar o play!





É de grande preocupação o desprezo pela colaboração literária, filosófica e científica de escritores brasileiros, como Suassuna, especialmente quando nordestinos. Há ainda um sentimento profundo de não da qualidade de obras produzidas pelos nordestinos e que muitas vezes ganham mais reconhecimento fora do Brasil do que dentro dele.


A derrubada da estátua de Suassuna precisa ser investigada e, tão logo se possa, reinaugurada com toda a pompa que ele e sua obra merecem. Não podemos permitir que prossigamos neste paradoxo da contemporaneidade que é um acesso cada vez mais facilitado à informação e a decisão de se permanecer desinformado e agindo de forma contrária a patamares civilizatórios.


Vamos refletir sobre isto, ok?


Até mais,


Belmiro Vivaldo.




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